32ª Jornadas Pedagógicas de Educação Ambiental. Quatro dias de reflexão, partilha e ação em Bragança

4/11/2026

Entre 15 e 18 de outubro, realizaram-se, em Bragança, as XXXII Jornadas Pedagógicas de Educação Ambiental, promovidas pela ASPEA, em parceria com a Câmara Municipal (CMB) e a Universidade Politécnica da cidade (UPB). O programa foi preenchido por vários momentos de discussão, partilha e aprendizagem sobre “Educação Ambiental e Coesão Territorial: por que escolhemos ficar?”. Participaram mais de 170 pessoas, com várias entidades envolvidas desde municípios, universidades, organizações da sociedade civil, entidades públicas do ambiente e educação, e vários alunos, não estivéssemos nós na UPB.

Tudo começou no Museu Abade de Baçal, espaço com 111 anos de história e cuja visita é gratuita para os residentes em Portugal, no âmbito do programa “52 Dias com a Cultura”, conforme enalteceu o seu presidente, Jorge da Costa, na receção aos participantes. Aqui, deu-se a Sessão de Abertura, onde intervieram Joaquim Ramos Pinto, presidente da ASPEA; Francisco Teixeira, Diretor do Departamento de Comunicação e Cidadania Ambiental da Agência Portuguesa do Ambiente (APA); Orlando Rodrigues, reitor da UPB; e, por último, mas não menos importante, Isabel Ferreira, pesidente da CMB.

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Sessão de abertura com Joaquim Ramos Pinto, Presidente da ASPEA (esq.) e Isabel Ferreira, presidente da CMB (dir.).


Esta cerimónia ficou marcada pelo apelo a uma educação ambiental mais forte, crítica e participativa, num contexto de policrise e de crescentes desafios à sustentabilidade, tendo Joaquim Ramos Pinto destacado a importância de reforçar a educação ambiental enquanto política pública e alertado para a necessidade de ultrapassar uma participação frequentemente limitada à informação e à consulta.

Francisco Teixeira sublinhou a importância da Estratégia Nacional de Educação Ambiental 2030 e alertou para a diminuição dos níveis de preocupação ambiental e do envolvimento dos jovens na luta climática. Defendeu, por isso, a educação ambiental como instrumento estratégico para influenciar decisões e mobilizar a sociedade.

Por sua vez, Orlando Rodrigues defendeu que a conservação ambiental deve ser acompanhada pelo desenvolvimento e pela inovação, salientando que os problemas estão identificados e que importa agora encontrar soluções.

No final, Isabel Ferreira encerrou as intervenções, destacando que escolher ficar não significa perder oportunidades. Defendeu ainda a cooperação, a conciliação entre tradição e inovação e a valorização dos recursos do território como condições essenciais para um desenvolvimento sustentável.

Esta sessão culminou com um cocktail e um momento cultural dos Gaiteiros e das Pauliteiricas do Agrupamento de Escolas de Miranda do Douro, dando por encerradas as atividades do primeiro dia do evento.


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Momento Cultural com os Gaiteiros e das Pauliteiricas do Agrupamento de Escolas de Miranda do Douro


O segundo dia começou com a sessão de enquadramento das Jornadas, no Auditório Conceição Martins, na Escola Superior de Educação da UPB (ESE/UPB), onde se destacou a importância de reforçar o papel da Educação Ambiental nas escolas, na sociedade e nas políticas públicas, bem como de valorizar os profissionais da área, com Carlos Teixeira, diretor da ESE/UPB, Joaquim Ramos Pinto, presidente da ASPEA, e Márcia Moreno, representante do Município de Bragança. Ao longo destas três intervenções, ficou patente a necessidade de transformar a Educação Ambiental numa prioridade contínua, sustentada por políticas públicas, profissionais reconhecidos e parcerias capazes de aproximar instituições, comunidades e jovens.

Após um primeiro coffee-break, os trabalhos continuaram com duas mesas-redondas. A primeira, dedicada ao olhar da ciência, centrou-se nos desafios e nas oportunidades dos territórios de baixa densidade, com destaque para a região de Bragança e as suas potencialidades ambientais, económicas e sociais.

Nesta, Pablo Meira, professor da Universidad de Santiago de Compostela, destacou as semelhanças entre o norte de Portugal e a Galiza, defendendo uma nova perspetiva sobre estes territórios, ricos em recursos naturais, mas frequentemente subvalorizados. Alertou ainda para o impacto do crescimento económico nas alterações climáticas e para a necessidade de adaptar os padrões de consumo e reforçar a educação ambiental, sobretudo junto das populações mais envelhecidas e vulneráveis.

Amílcar Teixeira, professor da UPB, sublinhou que “viver em territórios de baixa densidade não é uma fatalidade”, defendendo a articulação entre tradição, ciência e inovação. Considerou essencial apostar em produtos de qualidade e diferenciadores, aproveitar os fundos europeus e melhorar o ordenamento do território, alertando também para o agravamento dos incêndios rurais e dos fenómenos meteorológicos extremos.

Por sua vez, Cláudia Costa, também docente da casa, reconheceu as dificuldades associadas à falta de população, emprego, serviços públicos e oportunidades, mas destacou o sentimento de pertença e o papel ativo das comunidades. Defendeu que baixa densidade não significa baixa capacidade de inovação e apontou a qualidade ambiental como um fator que pode contribuir para fixar população.

Entre as principais ideias debatidas estiveram a necessidade de transformar o conhecimento científico em ação concreta, aproximar a ciência das populações e desenvolver soluções adaptadas às características de cada território, sendo a valorização dos recursos locais, a participação dos cidadãos e a articulação entre tradição e inovação apontadas como caminhos para promover a coesão territorial e responder aos desafios das alterações climáticas.


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Mesa Redonda “Educação Ambiental e Coesão Territórial: o olhar da ciência, com Pablo Meira (USC), Amílcar Teixeira (UPB) e Claúdia Costa (UPB), moderado por Francisco Teixeira (APA).


No lugar da segunda mesa redonda, esteve a voz aos jovens. Ouvimos Ângela Cordeiro, Sara Freire e Braima Bari, todos educadores ambientais formados no curso de Educação Ambiental da UPB. Nesta mesa-redonda, os três oradores partilharam as suas experiências, nomeadamente as oportunidades e mais-valias que encontraram no viver no interior, a possibilidade de fazer educação ambiental de, para e sobretudo com as populações mais envelhecidas, as dificuldades sentidas em fazer chegar a mensagem da Conservação da Natureza às suas gerações, as falhas que notam para que mais jovens não sigam o seu exemplo e acabem por optar pelo litoral e especialmente a necessidade de tornar livre e emancipatória a escolha de local de residência.


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Mesa Redonda “Educação Ambiental e Coesão Territórial: a voz dos Jovens” com Ângela Cordeiro, Sara Freire e Braima Bari (alumni UPB), moderado por Alexandre Ferreira (ASPEA)


À tarde, o programa retomou com dois painéis direcionados aos eixos temáticos das Jornadas.

No Painel do Eixo 1, dedicado ao território, produtos e pessoas, Ruben Oliveira, da Liga para a Proteção da Natureza (LPN), alertou para os riscos das deep fakes e do greenwashing, defendendo o pensamento crítico, a formação de professores e a confiança nas comunidades como ferramentas essenciais para combater a desinformação. Sublinhou ainda que o abandono dos territórios rurais agrava a sua fragilidade e que as soluções ambientais devem ter em conta a complexidade das realidades locais.

Manuel Nunes, do Agrupamento de Escolas Mário Fonseca, destacou o impacto do envolvimento comunitário na conservação da biodiversidade, dando como exemplo o seu município, Lousada, onde o voluntariado passou de uma expressão praticamente inexistente para cerca de 20 mil voluntários em 2025.

Lília Silva, do Geoparque Terras de Cavaleiros, salientou a importância de envolver as populações na valorização do património geológico e cultural, transformando-as em participantes ativos na preservação do território.


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Painel Eixo 1 “Território, produtos e pessoas” com Ruben Oliveira (LPN), Lília Silva (Geoparque Terras de Cavaleiros), Manuel Nunes (Escolas Mário Fonseca), moderado por Manel Meirinhos (UPB).


Já, o Painel do Eixo 2 centrou-se no empreendedorismo e na inovação, com António Sá, da Bétula Tours, Luís Correia, da APIMONTE, e José Alho, da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo (CCDR-LVT), a apresentarem experiências e perspetivas sobre a atividade empresarial e a valorização dos recursos territoriais. Foi também destacada a importância de referências locais na Educação Ambiental e no conhecimento do território.

Mais um dia de trabalhos concluído ao som de um momento cultural, desta feita da responsabilidade de alguns grupos de alunos da UPB.


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Painel Eixo 2 “Educação Ambiental para a inovação e empreendedorismo” com António Sá (Bétula Tours), Luís Correia (APIMONTE), José Manuel Alho (CCDR-LVT), moderado por Luís Henrique Pereira (RTP).


Ao terceiro dia, os participantes participaram em quatro diferentes oficinas. Foram elas, “A floresta perto de mim”, dinamizada pelo Francisco Gouveia, da ASPEA; “Com foco na Natureza”, da responsabilidade da PALOMBAR; “Projeto Rios: ferramenta para a Ação”, desenvolvida pela professora Elisabete Franco, do Agrupamento de Escolas Latino Coelho, em Lamego, e pela Anabela Pereira, coordenadora nacional do projeto; e “Totebag Green”, que esteve a cargo das colaboradoras do To Be Green, Eldeny Gomes e Nádia Carvalho.

Logo, de seguida, retomaram-se as atividades no Auditório. Desta feita, foi tempo de ouvir e ver o Painel do Eixo 3, onde as intervenções incidiram sobre o património, as memórias e a identidade das comunidades.

Francisco Pacheco, do Grupo de Intervenção Patrimonial de Alegrete, refletiu sobre a transmissão de conhecimentos entre gerações e a necessidade de dar espaço às memórias das populações.

Roberto Afonso, professor do Agrupamento de Escolas D. Afonso III, destacou o dinamismo regional, enquanto Esther Isabel Prada, professora da Universidade de Alcalá de Henares, defendeu que a preservação da biodiversidade depende também da vontade das próprias comunidades em proteger o que reconhecem como seu.


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Painel Eixo 3 “Educação Ambiental através do património material e imaterial” com Esther Isabel Prada (Universidad de Alvalá de Henares), Francisco Pacheco (Grupo de Intervenção Patrimonial de Alegrete), Roberto Afonso (Escola D. Afonso III), moderado por Pedro Martins (ASPEA).


Após o almoço, foi o momento, de, por fim, assistir ao Painel do Eixo 4, onde se abordou a educação ambiental como resposta aos desafios climáticos e à perda de biodiversidade.

Neste sentido, Mário Santos, do CITAB-UTAD, defendeu o contacto das crianças com a natureza como forma de promover hábitos sustentáveis e uma maior consciência sobre a relação entre alimentação e conservação ambiental.

José Luís Rosa, do ICNF, apelou à criação de alianças entre comunidades, municípios e instituições públicas, considerando a cooperação indispensável para uma gestão territorial eficaz.

Conceição Colaço, do ISA-UL, destacou as oportunidades de financiamento através de projetos ambientais europeus, lamentando, contudo, a insuficiência de medidas de mitigação dos desafios climáticos.

Para terminar a ordem de trabalhos do dia, os participantes dividiram-se pelos grupos de trabalho por eixos temáticos, uma modalidade dinâmica de exposição e debate de comunicações breves, com vista à produção de contributos com propostas para a ação.

Em paralelo, realizou-se, ainda, no Auditório Conceição Martins, o evento “Sintonia – Potenciar Sinergias entre Educação Ambiental e Educação para o Desenvolvimento nas ONGAS”. Neste, José Luís Monteiro, da OIKOS, e Margarida Gomes, da ABAAE, de forma remota; e Joana Diniz, da ASPEA, e Lurdes Soares, da APA, de forma presencial, falaram sobre como podem as ONGAS caminhar juntas aliando a justiça social e ambiental na mesma frente.

Este penúltimo dia acabou com a Sessão de Encerramento, onde os três organizadores parceiros agradeceram todo o esforço envolvido na organização do evento e Pedro Martins, vice-presidente da ASPEA, anunciou que as próximas Jornadas serão nas Serras do Porto, em data a definir, e um momento cultural, onde os participantes puderam viajar até ao outro lado do Atlântico e se começar a despedir do evento ao ritmo do sertanejo, novamente protagonizado por estudantes da UPB.

No último dia, a ESE/UPB e a ASPEA Bragança organizaram duas visitas de campo para os participantes, tendo estes que optar pela que escolhiam mais.

Enquanto uns foram ao Parque Biológico de Vinhais, onde puderam contactar com inúmeras espécies da fauna e da flora locais; outros foram fazer um percurso pelas Aldeias de Vilarinho e Aveleda, sitas no Parque Natural de Montesinho. Percurso esse que, na Aldeia de Vilarinho, foi dividido entre uma ida à APIMONTE para conhecer melhor o processo de produção do mel e de criação de valor a ela inerente e uma à sede da ASPEA Bragança para ouvir mais sobre o projeto “Montesinho para todos”, dinamizado pela PALOMBAR, e sobre a produção caseira de castanhas. Já, na Aldeia de Aveleda, o caminho bifurcou-se entre a ida ao atelier de Isidro Rodrigues, artesão de máscaras transmontanas, e a visita à oficina de Gilberto Ferreira, cutileiro.


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Com estas saídas de campo, deu-se, então, por concluída mais uma edição das Jornadas Pedagógicas de Educação Ambiental e, no conjunto, todas estas atividades reforçaram uma ideia transversal: a Educação Ambiental exige pensamento crítico, participação das comunidades, valorização dos recursos locais e cooperação entre instituições, para que o conhecimento se traduza em mudanças concretas e duradouras.


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Texto escrito e fotografias capturadas por:
Alexandre Ferreira, Andreia Vieira,
Maria Ferreira, Maria Martins e Miguel Moura


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