Conclusões
Nestas Jornadas da ASPEA, realizadas nos dias 23 e 24 de Janeiro, no Centro de Congressos dos Hospitais da Universidade de Coimbra, imbuídas de afecto, sensibilidade e criatividade, com um domínio cognitivo de intervenções pragmáticas bem alicerçadas teoricamente nas tendências mais actuais da Educação Ambiental, conclui-se que:
| as interacções Homem - Sociedade - Natureza, comprometidas pelos avanços das teorias mecanicistas e de consumerismo fácil são difíceis de alterar porque, já num adiantado estádio de subversão, quando possíveis, são uma aposta única; | |
| as problemáticas educativas vão-se equacionando de forma a dar lugar a instrumentos estratégicos de mudança, alicerçados em compromissos de cultura e solidariedade; | |
| é necessário combater a padronização, dando lugar à biodiversidade, libertando os jovens das grilhetas do facilitarismo e da vulgarização das posturas; | |
| a defesa do Ambiente, em sentido lato ou restrito, é uma atitude cultural; | |
| não há reformulação de mentalidades que não exija uma disciplina entendida como postura de procedimentos; | |
| os modos de consumo, cada vez mais imbricados na cultura, têm que resultar de um racionalismo ecológico, tendo como meta a preservação ambiental. Só pela negativa, as recomendações não são ouvidas; | |
| as pessoas têm de sentir mais na "pele", os atentados culturais e agir de uma forma interventiva, tendo sempre em atenção o que vai na alma mais profunda do povo; | |
| consumo ético a implementar não deve desprender-se da cidadania; | |
| se deve levar a perceber o paradigma da Saúde versus Ambiente; | |
| a acção humanitária é uma forma privilegiada de resposta ao pensamento; | |
| a sustentabilidade cultural, passando pelo pilar social, tem que ter em conta o binómio colectivo e individual; | |
| a nossa intranquilidade aumenta enquanto nos deixarmos colonizar pelo consumo alimentar, deixando consequentemente perder as nossas características lusitanas; | |
| deixando cair a biodioversidade, se deixa perder a identidade cultural, correndo o risco de igualizar tudo; | |
| direito à diferença, entendida em todos os sentidos, é um direito a preservar, mesmo com custos elevados; | |
| é preciso democratizar o globo, parando a loucura que atinge povos ávidos de espectacularidade; | |
| ser humano deve ser contemplado e inserido num sistema formado por três esferas: biosfera, socioesfera e tecnoesfera; | |
| muitos dos males que afligem o planeta não são problemas ambientais, mas sim os seus efeitos; | |
| os verdadeiros problemas ambientais estão relacionados com os Homens, com os valores da sociedade, resultando daqui os verdadeiros problemas; | |
| a via ecocêntrica é a única etapa válida; | |
| os sistemas educativos estão impregnados por paradigmas mecanicistas, mas que as rupturas que se vão dando, originam novos valores e procedimentos para a mudança, que se pretende; | |
| só é possível um desenvolvimento sustentado com uma nova educação, em que o enfoque seja a educação para a cidadania e a "intervenção interventiva"; | |
| é preciso contextualizar a ciência com os saberes, mudando a praxis e as atitudes para buscar uma nova forma de viver, ultrapassando períodos de colapso ou de grandes certezas; | |
| "conhecer é poder" | |
| não existe oposição à natureza / cultura e que esta, ao contrário, em simbiose traz uma carga culturalmente mais forte; | |
| é preciso saber valorar, distinguindo os meios naturais dos artificiais; | |
| a busca do pacto cultural passa pela busca da cidade que já foi campo; | |
| os aspectos campo/cidade se misturam e é salutar acreditar na possibilidade de rever as dicotomias, envolvendo-as; | |
| projectos de educação ambiental têm tido papel decisivo na dinamização de vilas (caso de Mértola, exemplo vivo de dinamismo actuante, tanto no campo arqueológico, como económico/social e ambiental), sendo necessário que o Poder Político responda com maior brevidade às solicitações e que, ao aprovar os projectos, o respectivo contributo financeiro seja rapidamente entregue, de modo a viabilizá-los; | |
| os procedimentos da Educação Ambiental servem para fixar populações e levá-las a agarrar os seus próprios desígnios; | |
| pequenas estruturas locais, quando bem dinamizadas, podem repercutir-se a nível nacional; | |
| para reactivar tecidos culturais, os passos não podem ser de gigante, mas adaptáveis a metodologias, que não violem tradições enraizadas no povo; | |
| a tradição oral, que se vai perdendo, em função dos mass media, é perfeitamente recuperável; | |
| as relações intra-culturas tendem a agravar-se em função do lucro fácil. Assiste-se ao êxodo das populações, a maior parte das vezes em função da pobreza das terras (exemplo da Lousã); | |
| não se pode isolar "Cultura" da vida económica e política, devendo-se defender, a todo custo, formas alternativas de desenvolvimento e de despertar rural e citadino; | |
| turismo, para não ser nocivo, deve prever programas integrados, tendo em vista as problemáticas próprias, evitando o turismo de massas, ameaça ao património natural, social e construído; | |
| é preciso saber edificar novos espaços geográficos, diferentes, mas sempre equilibrados nos seus desequilíbrios; | |
| a natureza e cultura estão intimamente relacionadas; | |
| é preciso reavivar formas de cultura, que parecem não ter viabilidade competitiva, mas que fazem parte da tradição e que numa análise global devemos colocar numa multifuncionalidade; | |
| "Vejam bem que não houve só gaivotas em terra", mas voos ao mundo da imaginação, através de actividade criativas, de reutilização de resíduos sólidos, tanto na busca inesgotável de formas plásticas, à procura do conhecimento do "eu", como da reutilização dos mesmos materiais, em simulação de comportamentos da Natureza, como da construção de "instrumentos musicais", a chamada música verde, agregada à expressão dramática. | |
| Viu-se como "materiais velhos", desperdiçados pela maioria, se podem readaptar a novas funcionalidades, relacionando mesmo as formas com a função e fazendo ressaltar a calma, a luz-cor, a linha, a superfície, o volume, a textura e a estrutura. | |
| Os voos também foram até alguns projectos apresentados no âmbito da EA. | |
| O "eu criança" foi despertado nos participantes através destas actividades. Todos foram unânimes em considerar que se encontra ainda dentro de cada um de nós muito por descobrir e que esta parte adormecida se manifesta quando se está verdadeiramente envolvido nestes domínios. | |
| Cabe pois ao Poder Central, através do Ministério da Educação e do Ministério do Ambiente (que até têm celebrado protocolos no âmbito da EA) conhecer de perto todos estes projectos, acarinhá-los e divulgá-los junto da população anónima e junto do sistema formal e não formal do Ensino. | |
| Apetece-nos referir, à laia de principal conclusão, que todo o processo de Formação Pessoal e Social dos nossos jovens e restante população, passará por esta panóplia de experiências, vivenciadas nestas Jornadas. |
ASPEA
Coimbra, 24 de Janeiro de 1998