IX Jornadas Pedagógicas de Educação Ambiental
Educação Ambiental - Uma questão de valores
Conclusões
Um.
As IX Jornadas Pedagógicas de Educação Ambiental da ASPEA , realizadas entre 24 e 26 de Janeiro em Albernôa, cumprem-se num tempo e em condições especiais, para não dizer excepcionais.
Estão ainda frescas as tomadas de posse dos novos autarcas, a Assembleia da República está dissolvida e o governo com capacidades limitadas trata dos assuntos correntes até à constituição de um novo governo que virá a ser formado na sequência de eleições antecipadas a realizar em Março.
Em política educacional, o momento está marcado pelas mudanças inscritas na reorganização curricular do ensino básico e na revisão curricular participada do ensino secundário. Há mudanças profundas ao nível das configurações dos ensinos básico e secundário, mas também da organização escolar a elas associada, e há lugar para abordagens visando o desenvolvimento de competências transversais, há uma intencionalidade nova na abordagem de temas transversais e com novas metodologias, novos tempos e novos espaços. Desenham-se novas abordagens para temas ligados à cidadania que englobam a educação ambiental, a educação sexual, etc. E desenha-se um compasso de espera de novas definições.
Nesta espera, a ASPEA realiza as IX Jornadas e mobiliza cerca de 150 animadores, educadores, professores e investigadores para colocar a educação ambiental como valor em si mesma para o conjunto da sociedade e como uma questão de valores na sua aplicação. Mais, mobiliza para a reflexão sem deixar de procurar novas formas de acção e sem deixar de tentar integrar novas propostas. Não podemos deixar de dar o devido realce à acção dos dirigentes que arriscam a oportunidade e à dedicação dos activistas que asseguram que esta oportunidade não é perdida, no que depende de quem a vive e com ela aprende.
Acompanhámos muitas intervenções e ganhámos novas esperanças no futuro da educação ambiental, tão responsavelmente jovens são muitos dos intervenientes com experiência em projectos de animação social comunitária, com responsabilidades em associações ou em instâncias autárquicas, por exemplo. Reconhece-se também a diversidade de metodologias viradas para a participação activa que constituem um bem em si mesmas, já que suportam transferências para a acção de cada um dos animadores quando são devolvidos ao seu ambiente.
Realçamos ainda o facto de todos os trabalhos se desenvolverem num espaço de grande recolhimento e em instalações apropriadas ao convívio e ao trabalho de ambientalistas.
Realce-se ainda para a participação de convidados da Galiza, da Guiné Bissau e de Cabo Verde. Destas cooperações esperam-se resultados a longo prazo. Mas constituem uma marcação de posiçãoDois.
Apesar da ausência dos responsáveis autárquicos de Beja, a sessão de abertura constituiu um momento de reafirmação da ASPEA no campo da política do ambiente e da educação. De facto, compareceram a apoiar inequivocamente as IX Jornadas e actividade da Associação, um representante do Governo Civil de Beja, uma representante do Director Regional de Educação, o Presidente do Instituto de Conservação da Natureza e o Secretário de Estado do Ambiente. O realce das intervenções vai para o facto de todas elas reconhecerem o papel da Associação como parceira para as questões da educação ambiental, sem qualquer sombra de discurso de circunstância no que respeita a esse reconhecimento.
Três.
A primeira sessão plenária, sob o título "Mudanças sociais - novos desafios e o nosso futuro comum", contou com intervenções de Alexandre Quintanilha e Eurico de Figueiredo.
Alexandre Quintanilha traça o quadro do que tem acontecido com o crescimento global, comparando a evolução de indicadores por décadas e a evolução dos indicadores de crescimento dos países em desenvolvimento com os dos restantes. Traçará quadros de referência e de preocupação para os que defendem o crescimento continuado e para os que defendem o crescimento sustentado. Levantará ainda novas questões e formas de acompanhar criticamente os trabalhos dos cientistas e a sua aplicação ao crescimento da produção de bens alimentares, por exemplo, bem como às mundialização e globalização e seu controle. Abre novas pistas para o debate necessário e sugere formas de acção que podem vir a ser bem sucedidas.
Eurico de Figueiredo compara resultados de inquéritos sobre valores aplicados a jovens nas décadas de 60, 80 e 90, dos quais muito dificilmente destaca vertentes ligadas ao ambiente ou educação ambiental. A principal conclusão é que os valores ligados ao ambiente (que vão ser os valores novos a juntar) que podem ser autonomizados nesses inquéritos mostram que eles são comuns a várias idades e gerações e também não dependem das classes sociais. Em relação a valores de cidadania e de direitos, particularmente da mulher e relativos à sexualidade, também se conclui que os jovens de 90 são mais conservadores que os jovens de 80 (com um recuo de cerca de 10%). Eurico de Figueiredo estabelece ainda diferenças claras entre os valores assumidos nas palavras e as práticas que os desmentem.As perguntas e intervenções da assistência obrigam os conferencistas a esclarecimentos de detalhe sobre alguns aspectos das suas intervenções, com recurso a exemplos episódicos sobre hábitos culturais ou a exemplos de investigações e resultados de manipulação genética.
Quatro.
Uma sessão plenária muito viva foi a do Vídeo-Forum sobre "Ambiente e valores nas televisões generalizas - que alternativas?" moderada por Carlos Brandão Lucas que introduziu o tema e o ilustrou com projecções de vídeos por ele realizados. A intervenção de Brandão Lucas, a partir do percurso da caixa que mudou o mundo até que o mundo muda a caixa, constituiu um pano de fundo para a crítica ao papel das televisões na actualidade e para a urgência de criar sistemas alternativos para a produção e realização, mas também para a distribuição de produtos audio-visuais com criação de audiências por outras vias que se relacionam com a educação, com o ambiente e o património locais, etc. A assistência obrigou a precisar alguns conteúdos da comunicação sobre ambiente natural e construído e sua relação com a vida das comunidades, mas também precisou as questões da responsabilidade colectiva e individual sobre a produção, realização e distribuição de filmes sobre o ambiente, etc, do tipo daqueles que foram apresentados por Brandão Luvas e são considerados exemplares para apoiar a animação e a educação para os valores do preservação do ambiente.
Cinco.
A intervenção mais directa e activa dos participantes é feita em grupos (que reúnem entre 10 a 25 participantes) tratando em salas separadas diversos aspectos do tema geral das jornadas, a saber:
Grupo A - Educação ambiental, direitos humanos e cidadania.
Grupo B - Ética e Educação Ambiental
Grupo C - Educação Ambiental - Potenciar a transversalidade
Grupo D - Políticas e estratégias nacionais e/ou regionais em Educação Ambiental
Grupo E - Estratégias, materiais e equipamentos de Educação Ambiental na formação de professores.Estes trabalhos nos grupos desenvolveram-se ao longo do dia 25 de Janeiro, depois de uma curta sessão de preparação no dia 24 e antes da apresentação de conclusões no dia 26. Estes grupos de trabalho contam com elementos dinamizadores, podem receber informação a partir de intervenções previamente decididas, podem realizar trabalhos de campo, promover jogos, desenvolver iniciativas de auto-formação, etc.
Grupo A
Educação ambiental, direitos humanos e cidadania.Educação para a cidadania no currículo.
Durante a manhã , o trabalho foi dinamizado por Luisa Ucha do DEB que propôs a simulação de um conselho de docentes do 1º ciclo e um conselho de grupo do 2º ciclo para planificar um projecto de educação ambiental relacionado com o espaço envolvente da escola. Para além das planificações realizadas que passaram pelo estudo e consulta de documentos oficiais do DEB, os participantes fizeram trabalho de campo com visita exploratória à herdade e, particularmente, à barragem do Roxo, para se elaborar um esboço da paisagem. Os participantes divididos em 3 subgrupos escolheram temas, identificaram as áreas disciplinares mobilizadas para cada projecto, bem como as iniciativas, actividades e tarefas a desenvolver por cada grupo de alunos (interna e externamente ao grupo). Identificaram também com algum detalhe as competências gerais que pretendem desenvolver com os projectos delineados.Educação Ambiental e direitos humanos.
Durante a tarde, o trabalho foi dinamizado por Regina Faria, da Civitas, que apresentou sumariamente a relação entre a educação ambiental e o exercício da cidadania entendido como expressão em comportamentos sociais dos direitos humanos interiorizados, e propôs debates em torno das seguintes questões: Direitos humanos e direitos da natureza: a conciliação urgente; Educação Ambiental e direitos humanos: estratégias pedagógicas; Projectos de Educação Ambiental e Direitos Humanos: testemunhos. Fala-se aqui de direitos do homem, mas também direitos da natureza e, em consequência, dos deveres do homem para com a natureza e da necessidade de códigos de ética universais com vista a esses deveres.Neste grupo, realizaram intervenções professores do ensino secundário e alunos.
Vale a pena referir que este grupo de incidência na educação escolar foi constituído por educadores e professores, mas também por animadores e elementos das câmaras municipais, o que revela o interesse na troca de saberes e em conhecer as formas de trabalho e as planificações feitas para a educação ambiental escolar.
Grupo B
Ética e Educação AmbientalEste grupo dinamizado por Cristina Baptista contou com a apresentação do projecto da Cercidiana "O feijoeiro" nas suas várias vertentes de actuação e equipamentos diferenciados, e se baseia sempre no apoio intergeracional.
Sob proposta e direcção de Cristina Baptista, da Sociedade de Ética Ambiental, foram realizados vários exercícios para determinar os tipos de valores pre-existentes em cada um dos participantes, obtendo informação sobre valoração de um ou outro aspecto. Estes exercícios podem ser transferidos para serem aplicados noutros ambientes. Os participantes consideraram, em conclusão, que a educação ambiental só poderá ser eficaz se trabalhar os valores, pois é deles que decorre toda a acção e reflexão. Para tal, a educação ambiental deverá ajudar a tomar consciência dos valores de cada um, através da observação dos seus actos no quotidiano. Para a sua operacionalização devem ser encontradas estratégias de trabalho que proporcionem um envolvimento da pessoa como um todo e não apenas os aspectos cognitivos do ser.
Grupo C
Educação Ambiental - Potenciar a transversalidadeEste grupo contou com intervenções de Manuela Galante e Mónica Lino, da Escola Secundária Matias Aires que relataram a experiência pedagógica de um projecto de oficinas de reciclagem criativa, ponto de partida para um curso de animador sócio-educativo /ATL - programa 15/18. O trabalho do grupo de discussão foi dinamizado por Manuel Gomes e António Dias com uma abordagem activa - Oficina Dono do sim e do não - dos problemas do ambiente, do consumo e da saúde e da sua importância na educação. Uma exploração feita na base das escolhas/valores/condicionamentos e liberdade por sucessivas abordagens inicialmente a partir de escolhas de caminhos com imediato significado físico. As experiências efectuadas e as fichas mantêm todas as potencialidades para utilização noutros ambientes e outros intervenientes. O grupo de discussão considera que estamos em mudança no que respeita à educação ambiental que passa de mera sensibilização na base do conhecimento científico e da sua transmissão para uma abordagem axiológica em termos de valores, objectivos e finalidades e não só em termos de resultados e utilidade. Assumir a mudança implica recolocar competências profissionais, centrar formação inicial e contínua de professores nesta área, investir na investigação e na investigação-acção de modo a produzir materiais para apoiar a educação ambiental.
Grupo D
Políticas e Estratégias Nacionais e/ou regionais em Educação AmbientalEste grupo de discussão contou com várias intervenções.
Uma primeira intervenção de Pablo Meira abordou uma estratégia em educação ambiental como conjunto de linhas orientadoras ou recomendações com carácter público e participativo para que contribuem e onde se comprometem todos os implicados em Educação Ambiental, associações, empresas, administração, educadores, etc. E como exemplo, apresentou o Plano Galiza (98-99).
A segunda intervenção de Manuel Camacho (CMB) abordou principalmente o Plano Director de Resíduos Sólidos do Distrito de Beja e um plano de acção da Câmara Municipal no âmbito da Educação Ambiental que não avançou muito para além do conselho consultivo.
A terceira intervenção de Mariana Lopes apresentou a estratégia da educação ambiental em Mértola, particularmente apresentou o trabalho desenvolvido pela Associação de Defesa do Património de Mértola e alguns desejos de futuro.
A quarta intervenção de Deolinda Ataíde aborda o trabalho de sensibilização em Educação Ambiental do município de Almada, até à Agenda Local 21 com discussão e participação públicas, à Casa Municipal do Ambiente, com ecoteca e para apoio ao munícipe em matéria de ambiente e também de suporte às actividades de educação ambiental da autarquia.
Houve ainda lugar a intervenção de um representante da organização não governamental Nantinyan que actua em prol do desenvolvimento local das ilhas Bijagós, na Guiné Bissau que apresentou aspectos da sua acção e organização que vai desde a alfabetização até à sensibilização para problemas de equilíbrio ambiental sem piorar as condições de existência das populações.
O grupo de discussão, dinamizado por José Manuel Rodrigues, passou então a trabalhar em 3 subgrupos que procuraram linhas de força para uma estratégia em educação ambiental. Um primeiro grupo chegou a propostas para uma estratégia de âmbito regional, outro debruçou-se essencialmente sobre o trabalho centrado nas crianças e nos jovens e na forma de ampliar os públicos nas comunidades com preocupação ao nível dos ambientes de trabalho e da coerência entre a educação ambiental e a os sistemas de gestão ambiental e o terceiro tratou das linhas de força que dizem respeito às relações entre as condições reais de vida das populações e a educação ambiental que depende sempre de um patamar mínimo de desenvolvimento sem o qual a adesão das populações não é viável. Este último grupo assume linhas de força que partem e passam pela solidariedade, pelas confiança sustentada entre os activistas e as populações, pelo combate para ganhar as diversas administrações para a acção a favor do ambiente, etc.
Grupo E
Estratégias, materiais e equipamentos de Educação Ambiental na formação de professores.A este grupo foram feitas várias apresentações. Foi apresentado, por Francisco Pacheco, o portal APENA/ASPEA, que, ao criar redes pretende combater o isolamento, provocando discussões e disponibilizando recursos e materiais de apoio. Reforça-se a chamada de atenção para a natureza das acções via internet que não podem substituir o contacto com a realidade, reforçando a necessidade da educação ambiental viver essencialmente do contacto com sensações e problemas reais. Rui Leal apresentou o projecto TERRA, que é um projecto de parceria entre instituições de formação e escolas e pretende desenvolver a transversalidade curricular, promover uma educação para a sustentabilidade e reforçar a formação dos professores do ensino básico. Não se pretende sobrecarregar as escolas com novos projectos, mas antes partir dos projectos em curso, indo ao encontro dos professores que devem ser motivados e sentir-se compensados pelas práticas da educação ambiental, promover intercâmbio entre disciplinas e ciclos, etc.
Juana Hermoso apresentou o Projecto de recuperação da Foz do Rio Cáster que pretende sensibilizar professores, formar monitores para apoio em saídas de campo e criar materiais de apoio. Fátima Matos Almeida e Joaquim Pinto apresentaram ainda a parceira internacional ECONET21 que pretende criar uma agenda escolar 21, formar professores e ambientalistas para o desenvolvimento, adaptar materiais existentes e criar novos, realizar formação ao nível escolar, mas também da comunidade e institucional.Da discussão realçam-se algumas conclusões: a) Os conceitos em educação ambiental devem ser organizados num percurso que vai desde a cidadania, ambiente e sustentabilidade até capacitação para agir e participação, passando pela definição da acção e da mudança, pelos valores, motivação e responsabilização; b) A formação para educação ambiental exige a responsabilização dos vários actores sociais, uma avaliação adequada, a valorização dos produtos de formação que devem servir como recursos fundamentais, tratar da eficácia dos recursos e insistir na coerência institucional; c) As componentes da formação devem considerar competências e recursos, optimismo realista e comunicabilidade, conhecimentos interdisciplinares e sensibilidade, experimentação e resolução de problemas; d) O levantamento das necessidades de formação deve ser feito em primeiro lugar a partir dos professores, sem desprezar as indicações de necessidades locais, regionais ou nacionais de formação que podem não constar na lista das sentidas pelos professores e são sugeridas (quando não supridas) pelas intenções de instâncias locais, regionais ou centrais (públicas ou privadas).
Finalmente, deve ser referida a vitalidade das intervenções de síntese dos trabalhos feitas por cada porta-voz dos grupos de discussão, na sessão final.
Seis.
O ambiente Feira, os Jogos ambientais, os serões de contos, os jogos de sombra ou mesmo as animações de dança constituem pontos importantes de convívio, mas principalmente sugestões para animações que podem ser tentados em ambientes nas comunidades de origem dos participantes, mas que exigem estas garantias momentâneas de acção. A relação com a cultura local, experimentada nas jornadas, é sempre um dado importante mesmo sendo vivida de forma mitigada.
Sete.
Conferência "Discursos da Educação Ambiental - Novas Perspectivas e novos paradigmas"
Belarmino Barata, da Universidade de Lisboa, apresentou um pequeno filme e interveio no sentido de esclarecer que, para além do reconhecimento dos problemas ambientais, é necessário reconhecer a complexidade dos sistemas que só puderam ser compreendidos após o desenvolvimento de ferramentas matemáticas e físicas adequadas. Só recentemente se puderam compreender os sistemas complexos que não são integráveis e só muito recentemente se tornou claro que o ambiente tem uma história, uma parte determinada outra não determinada, e que o homem para manter a vida tem de ser responsável tanto pelos seres vivos como pelos não vivos. Só recentemente se sabe que o principal problema reside em que estamos a bloquear as trocas necessárias entre os seres vivos e o ambiente, em que estamos a aprisionar elementos imprescindíveis. Belarmino Barata fez ainda a história dos ciclos termodinâmicos e dos efeitos das actuais decisões do homem. Concluindo, apontou algumas ideias, a saber: não deixar que sejam os jornalistas e os políticos sozinhos a tratar a informação, a escolher o âmbito das divulgações; que é necessário alargar o âmbito da formação científica; que é necessário haver novas políticas industriais e que é preciso saber quem vai pagar o esforço da sobrevivência da vida (o homem não é uma fatalidade, a evolução das formas de vida tem traços de grandes desequilíbrios, mutações, etc), chamando a atenção para a importância do estudo das formas de vida em condições extremas; a educação ambiental deve colocar a questão ética da responsabilidade do homem pela preservação tanto da vida como da não vida e para a necessidade de interromper os processos que aprisionam elementos e impedem as trocas necessárias entre o ambiente e os seres vivos.
Seguidamente Pablo Meira, da Sociedade Galega de Educação Ambiental, apresentou a história curta do ambiente e da educação ambiental bem como o conjunto dos passos dados pela comunidade internacional. Referiu em traços largos, as diversas concepções que foram formando a consciência ambiental, desde as ideias da conservação dos espaços e das espécies em que não se pensa nas causas, da década de 60, até à crise ambiental integrando componentes socio-económicos e biológicos, da segunda metade da década de 80 em que a terra é vista como macrosistema, em que se compreende a degradação ambiental à escala planetária e se levanta a necessidade da redistribuição dos recursos, passando pela fase do problema ambiental do fim da década de 70 em que se pensa na conservação do ecossistema e se levanta o problema da limitação dos recursos e se aflora a causa das contaminações. Finalmente, Pablo Meira apresentou as suas posições sobre o que considera ser o desenvolvimento sustentável no que isso significa de harmonizar os limites para a capacidade de carga do sistema com a manutenção do crescimento e do bem estar, acabando por abordar as duas interpretações ou leituras do que seja o desenvolvimento sustentável que se debatem e combatem na actualidade. Uma interpretação mais fraca considera que é necessário introduzir correcções fundamentalmente nos mecanismos de mercado, que o modelo de crescimento é bom e só há desajustamentos a corrigir, que o desenvolvimento é intrinsecamente bom incluindo para o ambiente, que os ricos são quem tem mais políticas de conservação da natureza e que é a pobreza que gera degradação do ambiente. Esta interpretação conduz a um certo tipo de medidas baseadas em soluções a encontrar pela ciência e tecnologia, pela economia com a introdução de quotas reguladoras, no controle demográfico e apostas nas mudanças de mentalidade. A interpretação mais forte põe a tónica no problema do sistema, exigindo mudanças radicais nos modelos, exige igualdade inter-relacional, defende que o desenvolvimento não é intrinsecamente bom e que é a riqueza que gera a degradação. As medidas que propõem os adeptos desta interpretação forte são no essencial do domínio da economia política e exigem mudanças nos estilos de vida, não aceitando que seja possível resolver o problema ambiental sem o pensar como problema de igualdade, liberdade e justiça. Pablo Meira pronuncia-se a favor desta interpretação forte e das medidas que ela preconiza.
Conclusões finais.As jornadas foram ricas de intervenções diversas e em propostas para o trabalho de desenvolvimento da educação ambiental que podem ser resumidas na seguinte lista de necessidades gerais:
a) educar para a cidadania para a participação na política nacional, mobilizando movimentos de cidadãos que influenciam os dirigentes dos países desenvolvidos para políticas e acções favoráveis ao ambiente e para formas de colaboração solidária com os países e povos que enfrentam problemas do nível da sobrevivência;
b) mobilizar a comunidade científica que realiza a investigação científica em áreas fundamentais e subsidiárias do problema ambiental e do ambiente como sistema para municiar as comunidades com conhecimentos científicos que sejam uma base segura para a participação consciente e, em especial, para melhorar a formação científica dos professores, educadores e animadores e para criar um discurso consistente sobre o estado actual da ciência relativamente às questões ambientais;
c) realizar uma educação ambiental combinada com acções concretas ao nível local que sejam pólos de animação das comunidades para a produção de alterações de comportamentos individuais e de grupo e para garantir a consistência entre o que se sabe e se diz e o que se faz, para aumentar o nível de exigência nas instancias locais de decisão;
d) produzir materiais de divulgação, referenciar boas práticas e criar sistemas de distribuição eficazes no apoio aos esforços locais, o que passa pelo desenvolvimento do movimento associativo ambiental;
e) garantir um elevado nível na formação de professores, educadores e animadores, mas também dos membros activos das autarquias e empresas autárquicas sempre que possível reunindo as diversas intenções que se responsabilizam mutuamente pela educação e acção.A realização de jornadas como estas Jornadas Pedagógicas promovidas pela ASPEA constituem momentos importantes para a elaboração de ideias e propostas, são instâncias nacionais de dinamização do trabalho colaborativo que é preciso desenvolver a nível local como parte de um esforço nacional e universal. Os activistas da ASPEA, em geral, e a sua direcção em particular devem ser saudados pelo esforço que desenvolvem e que, nestas jornadas, se transforma em demonstração inequívoca de trabalho positivo em prol da educação ambiental.
Espera-se que próximas jornadas conduzam a novos desenvolvimentos no estudo dos temas e a propostas cada vez mais esclarecidas e mobilizadoras de acção e medidas de política local, regional e nacional que invertam os caminhos de um desenvolvimento global que pode estar a pôr em causa a vida tal como a conhecemos.
Albernoa, 27 de Janeiro de 2002.
Arsélio de Almeida Martins, relator.